Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010 | Cotidiano
Era 23 de agosto de 2010, uma segunda-feira. Logo após o almoço, eu e os meninos seguimos em direção à escola. Uma parte do caminho é uma estrada sinuosa que tem uma pista que vai e outra que vem, não tem acostamentos nem canteiro central. O visual é bonito: fazendas, gados, cavalos, poucos carros e sim, caminhões areeiros que mesmo proibidos trafegam com carga pesada destruindo o asfalto e trazendo perigo. Com muita frequência eles erram as curvas, as marcas estão no chão, é só observar. Todo cuidado é pouco.
Enfim, nessa segunda-feira comecei a entrar numa curva para a esquerda e dei de cara com um caminhão na direção contrária, abrindo a curva bem em cima de mim. Por Deus, eu não estava correndo e num ato reflexo, tirei para o lado mas parte do carro saiu da pista e acredito que o desnível entre o asfalto e a terra somados aos pedregulhos me fizeram perder a direção, a traseira começou a escapar. Achei que fosse bater num barranco e nos bambuzais e tentei voltar a minha pista mas atravessei e fui parar na contramão. Ainda em movimento e sem controle nenhum, quaaaase bati de frente num carro preto que veio logo após o caminhão. Tenho na memória flashes da cara de espanto do homem dirigindo… Momento tenso, virei de novo a direção e escapei da colisão tentando novamente voltar para a minha pista. E tudo isso ainda era a tal curva.
Em alguns segundos não vi mais nenhum carro, nem estrada, só folhas, alguma coisa girando lentamente até que o vidro da frente se espatifou no chão, na terra, no mato. Velocidade zero finalmente, tínhamos *capotado*. Foi tudo tão rápido mas pareceu uma e.t.e.r.n.i.d.a.d.e… Estávamos num buraco, num charco, na lateral da pista onde eu deveria estar.

E os sons? Pedregulhos pipocando, pneus cantando, silêncio, mais pneus cantando, silêncio, galhos de bambus e folhas ralando no carro, silêncio para observar tudo girar e “creeec”, vidro encontrando o chão. Enfim, minha respiração e som de alívio. Isso existe ? Sim, a voz dos meus filhos.
Respirei e perguntei “meninos, vocês estão bem?” André logo respondeu “mamãe, acho que você vai precisar consertar o carro!”. Agora, quando eu lembro dessa resposta acho graça, mas na hora nem respondi. O senso de humor estava sei lá onde, dava pra ser diferente? rs Estava apreensiva mas pedi calma. E eles estavam calmos !! Procurei o Arthur e ele estava lá sentado e preso no cadeirão, pendurado como se estivesse numa roda gigante, logo acima de mim. Nessas horas fica até difícil entender onde está a saída rs. Queria tirar os meninos dali, pensei em risco de explosão, sei lá. André então se soltou do cinto, se sentou no teto e eu consegui abrir o vidro da porta dele, que não é elétrico. Ele saiu. O tempo entre o capotamento e o André sair do carro foi curtinho, sei lá, uns 30 segundos.

E quando eu ia começar a tirar o Arthur chegou o homem com o qual eu quase colidi de frente. Ele se abaixou, foi quando eu tive a sensação que já o conhecia. Ele perguntou se estávamos bem e abriu a porta do Arthur (o carro tinha se destravado sozinho!). Eu segurei o pequeno, que estava de barrriga para baixo, e o anjo desse homem destravou o cinto dele retirando o Arthur do carro. Eu catei a bolsa e saí logo em seguida, sentindo dor no peito e num dedo da mão esquerda.
Meus meninos que são meus bens mais preciosos estavam sãos e salvos! Aqui eles estão descansando esperando os trâmites todos… E um salve para os cintos de segurança e cadeirinhas !

Agradeci a ajuda do moço, que foi logo dizendo que o caminhão viu tudo mas foi embora. Perguntou se eu tinha anotado a placa hehe, faz-me rir. Não sei nem a cor do caminhão. Não sei se ao tentar voltar pra pista acelerei ou usei o freio, não sei não sei… Estava dando graças a Deus de estarmos vivos, mas pedir a Ele que me desse memória fotográfica a prova de choque emocional seria demais rs.
Ele já tinha avisado a polícia que chegou em pouquíssimos minutos. Logo chegou um agente de trânsito, ambulância, até caminhão de bombeiro. Aff. Assim que parei de tremer e consegui achar o telefone na bolsa, liguei para o Edu. Coisinha básica: “olha só… eu sei que você está sem bateria mas aconteceu um problema. Estamos TODOS BEM mas capotamos o carro…” (silêncio) Ele disse: “liga para a seguradora, estou indo imediatamente”.
Não foi necessário ninguém ir até hospital, graças! Muita confusão para um dia só, queria mesmo sair dali e ir pra casa. E respondo pergunta daqui, de lá, e ainda ao telefone com seguradora, pedindo guincho, fornecendo documento. E o moço me ajudando conversando com os policiais e com meus meninos.
Quando Edu chegou (dava a impressão que estava mais branco do que já é) um tempo passou e o moço que me ajudou se despediu e foi embora. E daí veio a surpresa quando o policial disse: “Olha você foi auxiliada por um campeão mundial”. E eu “é mesmo? quem ??” E ele respondeu “O Roque Jr”. Aaaahh, eu sabia que conhecia aquele rosto de algum lugar, era da copa do mundo ! Bem… como ninguém me avisou antes saí sem foto e sem autógrafo hehe. Mas agradeci tanto esse homem, nisso estou tranquila !
Quando o guincho chegou pensei que ia demorar um pouco pra tirar o carro dali mas que nada, eles têm prática. Já foi logo avisando que o carro ia “estragar” mais um pouco. Fica a vontade moço. Vão-se os anéis mas ficam os dedos !
A reação dos meninos foi essa: André desolado pedindo pra eu trocar o vidro da frente porque ele gosta desse carro e Arthur vibrando falando “êêêêêê” enquanto o carro se ralava todo na hora de ser retirado pelo guincho.

O acidente aconteceu por volta de 12:40h e chegamos em casa lá pras 14:30h. Os meninos ficaram agitados a tarde inteira, sabem pipoquinha estourando na panela ? Então… igual. Mas eles podiam tuuudooo. Melhor assim, ativos e bagunçando. Comeram o lanche que o guincho deu e coloquei um filme pra eles assistirem. Assistiram mas correndo pra lá e pra cá na sala.
Enquanto isso meu peito doía cada vez mais, não conseguia me abaixar e quando tentei descansar no sofá, não consegui. André me ajudou com uma cadeira (esse meu filhote é demais!!) e lá pelas tantas eu quase adormeci, sentada. Não conseguia falar mais alto, tossir ou espirrar.
Achei que não fosse conseguir dormir, mas consegui mais ou menos. De madrugada acordei sem conseguir me mexer e com dificuldade para respirar. Edu me colocou sentada com 3 travesseiros nas minhas costas e assim fiquei. E o filme todo do acidente passando na minha cabeça.
Os meninos ficaram com uma pequena marca de cinto no pescoço e demoraram um pouco a dormir. Arthur sempre acorda de madrugada e não foi diferente.
No dia seguinte a realidade: entrei novamente num carro (sem direção hidráulica) e foi muito difícil fisicamente falando. Pedi proteção a Deus e seguimos. Assim que chegamos na estrada Arthur falou “tô com medo”, ô dó do meu pequeno. Mesmo horário, mesmo local e todo mundo quietinho. E eles sempre falam taaaanto dentro do carro. Cada caminhão que passava por mim eu pensava: “será que foi esse ?”.
Bom, depois que deixei os meninos na escola passei num ortopedista de emergência e tirei raio-x da mão e do peito. Estou com um dedo fissurado e com uma tala, e o peito, apesar de muito dolorido, está ok.
Todo mundo me disse que o capotamento é o acidente menos grave. É que a desaceleração é lenta. Se eu tivesse colidido num barranco ou mesmo nos bambus (que são muito resistentes) a história poderia ter sido pior. Oi ??? Então, outro salve, só que dessa vez para o buraco rs. Não bati em caminhão, nem carro, nem pessoas. Obrigada Deus !!
E o jeito é seguir em frente, o show precisa continuar. Graças a Deus estamos vivos e bem !!
E atenção queridos amigos e amigas: usem cinto de segurança sempre, mas sempre MESMO !!
Abraços de quem nasceu de novo. Até mais !